quarta-feira, 9 de março de 2011

Só sobraram as cinzas.

Esse conto foi escrito por Marcionila Teixeira é jornalista, 37 anos, recifense e adora o carnaval de Olinda. 
Resolvi publicar pois achei ele bem legal. Espero que gostem.


Só sobraram as cinzas: Metódico e perfeccionista, Cursino se dividia entre duas paixões: o trabalho e o carnaval. E aprendeu a se contentar com o último dia da festa


Cursino nasceu vigilante. Sabe aquelas pessoas que desde criança dizem aos quatro ventos o que vão ser quando crescer? Cursino é uma delas. Aos sete anos, ganhou uma arma de brinquedo do pai, um embalador de supermercado que sustentava a família com os trocados que ganhava das madames. A garotada do bairro adorava o objeto novo do menino. É que, além de colorida, a arma disparava jatos de água. Aquilo ali ele não emprestava para ninguém. ´Nem para Jesus Cristo, se descesse à Terra`, costumava bradar para afastar os mais insistentes. 


Aos poucos, o revólver de plástico ajudou Cursino a identificar sua verdadeira vocação. Com aquele treco em punho, colocava a meninada pra correr na hora de brincar de polícia e ladrão. Foi se descobrindo poderoso e aos poucos o ego já não cabia mais em um rapazote de 12 anos. Menino franzino, do cabelo sarará, olhinho claro puxado para a mãe, Cursino nunca tinha sido a sensação do bairro ou da escola. Era feinho mesmo e, na cabeça dele, ser vigilante quando crescesse iria facilitar a vida. Quem sabe não teria respeito entre os colegas? Poderia até conquistar a menina que quisesse, pensava.. 


Mas há quem diga que vocação mesmo a gente só descobre quando chega o carnaval. Aí sim, até pessoas como Cursino, que sonham com um emprego na profissão escolhida, deixam de bater ponto e arrumam atestado médico para escapulir. Só que, como já deu para perceber, Cursino, que foi batizado assim em homenagem a um curso de reforço escolar inaugurado pelo governo no dia do seu nascimento, tinha certeza do que queria. E iria enfrentar tudo para ganhar e manter um bom emprego como vigilante. Nem que para isso deixasse sua outra paixão de lado: o carnaval.


Ainda criança, enquanto atirava jatos de água com sua pistola de plástico, a meninada usava bombas feitas com canos velhos para jogar água no povo. Na época, descobriu que também amava a folia, os desfiles dos blocos, aquela alegria estampada na cara do povo sofrido da vizinhança, a sensação de ser livre pelo menos por um curto espaço de tempo. Eis um problema. 


Cursino completou 19 anos e arrumou o primeiro emprego. Ainda não era o trabalho dos sonhos. Ficou encarregado de arrumar uns caixotes em um armazém do bairro. O bom daquele emprego é que, no carnaval, a bodega fechava as portas e Cursino preparava a fantasia para se esbaldar. Todo ano desfilava no Bloco dos Flanelas, formado por flanelinhas do bairro. Metódico, era no desfile que ele se sentia um pouco mais livre das amarras do perfeccionismo que marcava sua personalidade desde os primeiros anos de escola. Não podia ver um risco fora do lugar no caderno. Ia lá e apagava. No armazém, os caixotes pareciam ocupar espaços milimetricamente medidos, pensados.


Até que um dia, o sonho concretizou-se melhor que a encomenda. Recebeu uma proposta do dono do armazém de fazer segurança para um empresário, um bonitão com 25 anos que não abria mão de festas: era réveillon, carnaval ou São João. Até nome de rico o danado tinha: seu Tiago, era como Cursino deveria chamar o bem-nascido.

Seu Tiago iria curtir o carnaval inteiro. Já tinha feito até o roteiro: das ladeiras de Olinda, passaria pelo Recife Antigo e ainda daria uma voltinha em Porto de Galinhas. Não tardou para Cursino receber a ordem de ficar vigilante, mas nunca, nunca mesmo, atrapalhar as investidas de seu Tiago nas meninas durante o carnaval. ´Vê se fica de longe, senão a mulherada se afasta`, lembrava o empresário.

E assim foi. Cursino deixou a paixão pela folia de lado para viver outra paixão: o trabalho. E não foi mole, como era de se esperar. Quando lembrava do Bloco dos Flanelas desfilando na segunda-feira de carnaval, pensava em Lucíola, a moça de corpo escultural. Pensava na conversa com os amigos, no petisco e na cachaça no lugar do velho feijão, arroz e suco que fazem parte da rotina de um metódico Cursino. Pela primeira vez ele não sairia em desfile pelas ruas. Continuaria o Cursino de sempre: metódico, perfeccionista. 



Mas gente como Cursino busca a perfeição até na hora da folia. Cansado, mas cheio de esperanças, já eram 8h da quarta-feira de cinzas quando largou do serviço. Precisava brincar carnaval, nem que fosse somente naquela quarta-feira, que estava prestes a passar de cinzas para pó. Cursino, então, vestiu a fantasia de policial e partiu. Estava só, mas nem por isso infeliz. O resto da turma ainda dormia, ressacada dos quatro dias de folia. Bebericando uma cerveja cujo gosto ansiava há pelo menos uma semana, observou ao longe um movimento de pessoas. Partiu em direção à multidão que acompanhava o famoso Bloco da Turma do Plantão, formado por gente como ele. Seguranças, enfermeiros, policiais.

No caminho, raciocinou filosofias de botequim. Descobriu que passar bem pela vida depende do ponto de vista. Deu graças aos céus por ter um troco a mais no bolso e o mais importante: ainda tinha energia para pular atrás do bloco. Afinal, para pessoas como ele, a danada da quarta-feira ingrata nunca existiu mesmo.



Abraço a todos!